Em função do quarto centenário da cidade de Belém, o jornal Voz de Nazaré (Veículo de Comunicação impressa da Arquidiocese de Belém) publicou em sua página um panorama dos desafios vivenciados pela Igreja particular da Amazônia nos 400 anos de fundação da cidade e quarto centenário do início da evangelização da região, ainda hoje repleta de profundas questões a serem enfrentadas. Trata-se de uma análise feita por Monsenhor Raimundo Possidônio (Mons. Cid) da Mata, Vigário Geral da Arquidiocese de Belém e Coordenador de Pastoral. Diversos eventos marcam neste ano o aniversário de Belém. A Igreja também vivenciará de forma particular essa data. O sacerdote expõe pontos fundamentais da espiritualidade amazônica a partir da atuação e presença da Igreja na vida da cidade de Belém do Pará, uma missão que encontra forças na padroeira Nossa Senhora de Belém.

VOZ – A nossa igreja comemora o quarto centenário da presença evangelizadora na Amazônia ao passo que comemoramos também os 400 anos de fundação da cidade de Belém. Qual a representatividade desses dois eventos para a Arquidiocese?

Matéria Mons. Cid_Voz

Monsenhor Raimundo Possidônio – Vigário Geral da Arquidiocese

MONS. CID – Hoje em dia talvez se possa falar em paralelismo devido à separação Igreja x Estado. Há 400 anos atrás isso era impensável! Uma ação do Império Português Católico “por natureza”, era também uma ação da Igreja, devido ao sistema do Padroado. Em um único processo havia três movimentos interligados: conquista-colonização-evangelização. Creio que não podemos separar esse processo. Mesmo porque todos aqueles que estavam envolvidos eram católicos e por sua vocação deveriam ser também missionários do catolicismo, mesmo os leigos, por exemplo, das Irmandades/Confrarias. Mas também os comandantes, marinheiros, soldados e até, os malfeitores transformados em marinheiros de última hora! Logo, o povoado, a vila, a cidade fundada nascia sob o signo cristão… Missa, cruz, capela, catequese, batismos, os nomes… a “urbanização” nascente… Nada podia escapar do espírito cristão-católico. (Os protestantes faziam a mesma coisa. Onde eles conquistavam-colonizavam-evangelizavam sob o signo cristão protestante!)

Belém de Santa Maria foi denominada sobre o Grão-Pará. O local, o indígena, o nativo deve ceder o nome, o espaço, mudar a cultura, converter-se ao que chega. Não mudou muito de lá pra cá, hein!

O que somos hoje devemos a este “início”. Embora aqui já vivessem povos há milênios, que nos legaram um patrimônio incomensurável que foi absorvido pelos chegantes como a alimentação, os remédios, a vivência e sobrevivência no meio das florestas e rios, o cheiro-do-Pará… o que predominou aos poucos foi a cultura ibérica no modo de arquitetar a cidade, as casas, as tradições, os costumes, a religião… Aliás, o centro de tudo deveria ser o modo católico de ser. A vila, o povoado, a cidade deveria partir da igreja (templo), do cruzeiro… Todas as cidades antigas da Amazônia seguem esse modelo!

Durante 400 anos, ocorreram mudanças fenomenais na vida desta cidade – seria longo aqui esmiuçar essas mudanças econômicas, políticas, sociais, culturais – que atingiram também a vida e as tradições religiosas… Mas permanece um substrato católico representado em diversas manifestações religiosas que estabelecem um fio condutor com as origens da cidade. O catolicismo permanece como a expressão de fé que orienta a vida das pessoas. Ainda mantém relações muito próximas com a dimensão política, social, cultural.

De forma que os 400 anos de fundação da cidade são comemorados ao mesmo tempo que os 400 anos do início da evangelização para o interior da Amazônia por força de todas essas circunstâncias.

VOZ – O XVII Congresso Eucarístico Nacional apresenta logo associado a esta evangelização na Amazônia; rios e florestas sendo representadas como características da região e o Corpo de Cristo sendo partilhado, remetendo à já citada presença evangelizadora. Como se pode traduzir a presença e partilha da Igreja nos 400 anos?

MONS. CID – A Igreja Católica, como referi na 1ª. resposta, esteve presente ao longo da trajetória desta cidade como marco de interiorização para toda a Amazônia da conquista portuguesa. Essa participação deu-se através das Ordens Religiosas que missionaram por todo o sertão amazônica – Franciscanos, Carmelitas, Mercedários e Jesuítas – como também o clero secular. O primeiro missionário e o primeiro pároco de toda a região foi um padre secular – Pe. Manoel Figueiredo de Mendonça (aliás, muito pouco lembrado em toda a história da Igreja por aqui por causa da presença dos religiosos!). Essa presença marcante dos missionários efetivou-se de vários modos como missões ou aldeamentos para a catequese e aculturação dos povos indígenas, escolas, fazendas, engenhos, além das paróquias que aos poucos foram surgindo, e a Diocese, expressão da maturidade da presença da Igreja por estas plagas, criada em 1719. Isso foi preponderante até a metade do século XVIII, quando os Jesuítas foram expulsos, 2 províncias de Franciscanos foram embora como também os Mercedários. As paróquias proliferaram a partir daí, embora com imensas dificuldades devido à diminuta presença de padres seculares na região. Aqui entra um dado extraordinário da vida da Igreja na Amazônia, que é a participação de leigos e leigas que assumiram por todas as partes a vivência da religião católica nas mais diversas expressões, o que caracteriza um catolicismo tipicamente leigo-popular de alto relevo, até hoje significativo na vida e na história da Igreja.

No século XIX há uma outra fase do catolicismo que passa  a ter feições mais do centro da Europa devido a um outro fenômeno missionário, aqui denominado de Romanização, que vai combater o Padroado e as tradições do catolicismo popular, centrado mais na Paróquia e no Pároco, e no binômio catequese-sacramentalização.

Já em nossos tempos, há uma maior valorização dos leigos e leigas na missão da Igreja e um valorização das comunidades eclesiais de base surgidas pelo trabalho deles e delas, sobretudo nas margens do mundo urbano e no interior da Amazônia. Aqui em Belém a maioria das recém-criadas Paróquias tem sua origem nas comunidades eclesiais surgidas ao longo dos últimos anos.

Não poderíamos deixar de destacar a participação das diversas instâncias pastorais e evangelizadoras de nossa Igreja. Através delas, milhares de leigos e leigas se empenham nas mais diversas atividades, tornando a Igreja bem mais próxima da realidade da vida de nosso povo. Ultimamente as novas comunidades exprimem também essa presença. É um novo modo de consagração que acolhe as diversas aspirações de muitos jovens de se consagrarem a Deus e aos mais diversos serviços prestados ao nosso povo.

VOZ – Focando os 400 anos de evangelização, quais serão os presentes da Igreja para Belém? Sabe-se que o Congresso é um deles, quais os outros?  Qual será a programação pontual em janeiro e nos outros meses?

MONS. CID – Creio que o maior presente para a cidade de Belém será transformar este evento em algo que provoque nosso povo a perceber a necessidade de transformação dessa cidade. Eventos passam… deixam uma marca na história… Mas o que deve ficar é o desejo sincero de toda uma população de lutar e construir uma cidade mais humana, mais fraterna, solidária, mais cristã. E essa não é só uma tarefa dos católicos. É da população, dos dirigentes, do mundo acadêmico, empresarial… O nosso legado para o futuro será deixar plantadas as raízes dessa nova face da cidade. Que os 400 anos sejam o começo de um novo tempo e de uma nova consciência cidadã: todos cuidando do bem estar de todos, pois a cidade não é de uma minoria que domina tudo (pelo nome, pela classe, pelos bens…) mas é de todo cidadão que nela habita e dela deve cuidar, deve amar a cidade como sua e de todos os outros que nela convivem.

Assim cuidaremos melhor da educação, da saúde, da segurança, das ruas, da limpeza, da beleza do lugar, dos abandonados, dos infelizes,… Tratar-nos-emos como pessoas que se respeitam, valorizam umas às outras, que se ajudam, se solidarizam não só em alguns momentos, mas cotidianamente, com o intuito de viver mais plenamente a cidadania.

VOZ – Ao longo de 2016, o clero junto dos fiéis estará vivenciando plenamente o Ano Santo da Misericórdia instituído pelo Papa Francisco. Qual o gesto concreto da Igreja para a capital neste ano e como será vivenciado?

MONS. CID – O ano da Misericórdia é um belo presente da Igreja através do Santo Padre para todos nós. Quem leu a bula de proclamação do Ano Santo, O Rosto da Misericórdia, não pode deixar de beber na fonte de toda uma profunda espiritualidade que deve ser vivenciada com gestos concretos. Embora o ano santo seja marcado por eventos jubilares e outras manifestações como as obras de misericórdia – o que deveremos fazer sempre! -, o princípio orientador é de que os frutos a serem colhidos sejam de uma profunda e radical transformação de nossa vida e da vida do mundo. O Papa espera de todos nós, batizados e cristãos, a conversão de nossa vida vivida a partir de certos padrões que às vezes são meras repetições, costumes ou tradições sem sentido.

A misericórdia deve envolver e dinamizar toda vida e gerar novas atitudes que nos leve a buscar e construir com paixão e com a ternura de Deus o novo sentido da nossa existência e da existência do outro. O Ano Santo deixará, assim, sua marca na vida da Igreja e do mundo.

 

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