Ao reconhecer Jesus no partir do pão, lembramo-nos de nosso nome, “Belém, Casa do Pão”. Da mesma forma com que ressoou o convite ao VI Congresso Eucarístico Nacional, aqui realizado em 1953, ou como ecoou de Brasília para o Brasil o anúncio feito em 2010, no encerramento do XVI Congresso Eucarístico Nacional, desejamos que o Brasil inteiro repita conosco: “Vamos a Belém, para ver o que aconteceu, segundo o Senhor nos comunicou” (Lc 2, 15). Estamos próximos do Congresso Eucarístico e voltamos os olhos para a partilha de vida, do pão e da Eucaristia, nascidos do mistério do Altar. Com a contribuição do Monsenhor Raimundo Possidônio Carrera da Mata, nosso texto base do XVII Congresso Eucarístico Nacional uniu o sentido da palavra Belém com nossa história e nossas raízes amazônicas, cujas linhas gerais inspiram o que agora apresentamos.

“Deus viu que a Amazônia era boa”. Uma liberdade poética para aplicar à nossa região o que o livro do Gênesis registra ao falar da obra criada por Deus: “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1, 31). A Amazônia é um dom da criação e “a Criação é um poema de amor” (Cf. Declaração do III Encontro Regional sobre a Amazônia, promovido pelo CELAM, Manaus, 1-4.10 de 2009). A Amazônia é obra de Deus criador e providente, que quis presentear-nos com um pedaço do Paraíso e fez de nossos povos os depositários de uma grande missão: cuidar de sua obra maravilhosa.

No centro desta criação está o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, como sujeito e protagonista de sua história (Cf. Gn 1, 27-31; 2, 7-25). “A glória de Deus é o ser humano vivo e a vida do ser humano é a visão de Deus; se já a manifestação de Deus pela criação dá vida a todos os seres que vivem sobre a terra, quanto mais a revelação do Pai pelo Verbo dá a vida aos que veem Deus!” (Santo Irineu – Contra as heresias, IV, 20, 7). E Jesus Cristo inaugura uma nova criação, baseada na reconciliação das criaturas com o seu Criador e entre si, rompida pelos pecados da soberba e do egoísmo. A natureza, criada pelo Verbo Encarnado, é reconciliada com Deus pelo Filho encarnado.

Deus criou a Amazônia como lar para muitos povos, que receberam suas bênçãos e as “sementes do Verbo” e manifestaram sua adoração a Deus e o reconhecimento dessas dádivas nas suas manifestações religiosas, nos mitos e lendas que expressam a sabedoria que transmitiu de geração em geração um conhecimento e uma compreensão própria das coisas. A missão da Igreja de anunciar o Reino de Deus no meio destas populações, teve e tem sentido, porque o Evangelho pode enriquecer e plenificar a história, a cultura e a vida dos povos amazônicos.

Nesses quatrocentos anos de presença na Amazônia, “proclamando a Boa Nova aos Pobres” (Lc 4, 18), entre luzes e sombras, alegrias e esperanças, a Igreja se encarnou no meio desta realidade, armou sua tenda nos confins de nossos rios e igarapés, estradas e vicinais, cidades e vilas, malocas e tapiris, realizando uma evangelização libertadora que tem como centro Jesus Cristo, nossa esperança e nossa salvação. A presença da Igreja na Amazônia é um processo histórico que se desenvolveu dentro de um contexto que condicionou profundamente sua caminhada, mas os enquadramentos históricos de modo algum impediram que a mensagem do Evangelho fosse anunciada e a Igreja deixasse de realizar sua missão. Todo esse amálgama de expressões religiosas diversificadas está sintetizado de modo extraordinário no Círio de Nazaré, desde a história do achado da imagem de Nossa Senhora de Nazaré por um caboclo chamado Plácido, em 1700, e do Círio, iniciado em 1793, até as recentes manifestações.

Para a Igreja, evangelizar significou entrar na realidade do povo e anunciar a Boa Nova do Reino de Deus, pregado por Jesus Cristo. Uma Igreja voltada aos mais abandonados, foi solidária nas suas lutas, o que provocou rupturas com  classes dirigentes e dominantes e gerou mártires. Podemos afirmar que ao longo dessa história, foi configurado o rosto do povo amazônida, com características culturais e religiosas próprias. Hoje podemos falar de vários outros rostos, de várias “Amazônias” e de vários amazônidas, o que se torna um dos maiores desafios para a missão da Igreja. E nesta Amazônia, onde estamos como “Belém do Pará”, voltamos os olhos do coração para aprender a partir da “Belém de Judá”.

A terra de Davi, era uma cidade às margens do deserto da Judeia, Bet-Lehem: casa do pão. Belém, uma vilazinha do interior, foi o lugar escolhido por Deus para realizar a Encarnação de seu Filho, Palavra Eterna do Pai! Seu nascimento se deu num lugar pobre e no meio dos pobres. Foi para estes que Jesus veio, porque sua única esperança era Deus mesmo: esperavam de Deus uma Palavra de amor, libertação e esperança. Aquele que um dia viria a dizer “Eu sou o Pão da Vida” ( Jo 6, 48), nasceu na Casa do Pão! O pão, “fruto da terra e do trabalho humano” terá na vida de Jesus e do povo que ele vai constituir, um particular significado. Foi no pão que ele deixou a maior expressão de sua presença entre nós: “Na noite em que foi entregue o Senhor tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse: Tomai e comei, isto é o meu corpo que é dado por vós”. Aquele que nasceu na Casa do Pão, Ele que é o Pão da Vida, deixou-se ficar num pedaço de pão para sempre na Eucaristia! Sinais do amor e da bondade do projeto de Deus para a humanidade. Deus conduz a história conforme seu desígnio para expressar sua misericórdia para com todos. A Eucaristia torna-se assim a mais bela expressão da presença amorosa, celebrada todos os dias, especialmente no dia do Senhor, como memorial e realidade viva dessa presença no meio de nós.

Os missionários que aqui aportaram há 400 anos, trouxeram através da evangelização e da catequese os valores do Reino de Deus. A Igreja, ao anunciar o Evangelho, encontrou ressonância em muitos corações. O Espírito Santo, por desígnio divino, já tinha semeado os princípios do Reino de Deus.

De fato, no meio desses povos, os missionários perceberam a beleza de viver em harmonia com a natureza criada por Deus e que eles tão bem sabem cuidar. Os povos indígenas acolheram a mensagem e incorporaram ao seu patrimônio de vida os valores do evangelho que já viviam nessas terras. Nas aldeias a vivência da solidariedade, da reciprocidade e da partilha, expresso, sobretudo no trabalho unido, o potyrõ (puchirum = mutirão) e na terra e na comida partilhada entre todos. A festa era a mais bela expressão da igualdade. Um projeto de sociedade que manifesta a presença misteriosa do Reino de Deus por aqui. Sinais da gratuidade cristã!

O nome dado a este lugar não seria uma misteriosa intervenção dos desígnios divinos para manifestar a vocação destas terras e destes povos para viver de acordo com a vontade de Deus e manter viva sua presença nas diversidades de atitudes voltadas para manter o equilíbrio das relações entre o ser humano e a natureza? Estes povos, ao resistirem à escravidão e a destruição do ambiente, resistiam também a uma mentalidade tornaram-se testemunhas do verdadeiro evangelho, da Boa Nova de Jesus no meio deles.

Somos convidados a perceber e a compreender que a Amazônia tem muito a oferecer a todos aqueles que conosco vem partilhar deste jubileu de quatrocentos anos. Ela tem a ensinar a outros povos que esta é a terra da gratuidade, da partilha, da solidariedade, pois a evangelização fez dela, pela presença do Espírito de Deus, a Terra Prometida para muitos povos de fora e de longe. A Amazônia oferece a riqueza e a abundância de alimentos, que, partilhados, levam a superar o espectro da fome e das necessidades básicas de muitos irmãos e irmãs. Não obstante as mudanças ocorridas nestes últimos anos, é possível reverter o quadro de desagregação. Identificamos a preocupação pela defesa da vida em todos os momentos de sua existência, o cuidado e o amparo aos mais abandonados, gestos de solidariedade e partilha que num mundo em que o egoísmo tomou conta das relações.

É urgente abrir novos horizontes para um novo jeito de viver, numa sociedade alternativa e sustentável. O estilo de vida baseado no Evangelho passa a ser a vida em comunidade, formar redes de comunidades de diversos estilos, como nos tem orientou o Documento de Aparecida, inclusive a “comunidade ecológica” que prega e adota um estilo de vida sóbrio segundo a essencialidade evangélica, no respeito e preservação de todo o bem do mundo criado por Deus (Documento de Aparecida 125-126)

Os povos da Amazônia convidam a mudar o estilo de vida. Todas as pessoas, dentro das condições em que vivem, precisam converter-se a um estilo de vida baseado na simplicidade e na sobriedade, no respeito e no cuidado à natureza e na valorização do outro como parte imperativa de sua existência no presente e a das futuras gerações. O modo de vida dos povos da Amazônia pode ser um contraponto para uma reflexão sobre o novo caminho para o Brasil e para a humanidade. É preciso valorizar as pessoas e revelar-lhes o amor e a ternura de Deus para com toda a criatura humana, promover a cultura do encontro, ajudando a descobrir a beleza da fé cristã e da vida fraterna em uma comunidade, numa festa religiosa popular, como também e principalmente na celebração eucarística. Para tanto, a Igreja se torne a casa de todos, onde todos se sintam como irmãos e irmãs.

Jesus Cristo, ao nos dar o Pão da vida, sendo ele mesmo esse Pão, nos impulsiona a uma vida de comunhão fraterna que nos faz olhar para mais longe de nossos parcos horizontes e limitadas fronteiras. A Eucaristia tornar-se-á o alimento de todos para que todos tenham vida e vida em abundância (Cf. Jo 10,10), pois ela será fonte de comunhão e partilha em um mundo de divisão. O XVII Congresso Eucarístico Nacional, a ser realizado na Arquidiocese de Belém – Casa do Pão, quer ser para todas as pessoas que o celebrarem conosco, a festa da partilha do Pão da Vida, que é Jesus, a fim de que daqui brote a vida nova, nascida do Altar, para nossa Pátria.

 

Dom Alberto Taveira Corrêa

Arcebispo Metropolitano de Belém

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