VAMOS CONSTRUIR UMA CIDADE! “A terra inteira tinha uma só língua e usava as mesmas palavras. Ao migrarem do oriente, os homens acharam uma planície e ali se estabeleceram. Disseram uns aos outros: ‘Vamos fazer tijolos e cozê-los ao fogo’. Utilizaram tijolos como pedras e betume como argamassa. E disseram: ‘Vamos construir para nós uma cidade e uma torre que chegue até o céu. Assim nos faremos um nome. Do contrário, seremos dispersados por toda a superfície da terra’. Então o Senhor desceu para ver a cidade e a torre que os homens estavam construindo. E o Senhor disse: ‘Eles formam um só povo e todos falam a mesma língua. Isto é apenas o começo de seus empreendimentos. Agora, nada os impedirá de fazer o que se propuserem. Vamos descer ali e confundir a língua deles, de modo que não se entendam uns aos outros’. E o Senhor os dispersou daquele lugar por toda a superfície da terra, e eles pararam de construir a cidade. Por isso a cidade recebeu o nome de Babel, Confusão” (Gn 11, 1-9)

COMO CONSTRUIR UMA CIDADE? De fato, se o Senhor não construir a nossa casa, em vão trabalharão seus construtores; se o Senhor não vigiar nossa cidade, em vão vigiarão as sentinelas”(Sl 126, 1).

A CIDADE SANTA! Muitos anos depois, foi construída uma cidade! “Que alegria, quando ouvi que me disseram: “Vamos à casa do Senhor!’ E agora nossos pés já se detêm, Jerusalém, em tuas portas. Jerusalém, cidade bem edificada, num conjunto harmonioso; para lá sobem as tribos de Israel, as tribos do Senhor… Rogai que viva em paz Jerusalém, e em segurança os que te amam!… Pelo amor que tenho à casa do Senhor, eu te desejo todo o bem” (Sl 121, 1-4.6,9).

A CIDADE LUZ! “Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal perde seu sabor, com que se salgará? Não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e pisado pelas pessoas. Vós sois a luz do mundo. Uma cidade construída sobre um monte não fica escondida. Não se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de uma caixa, mas sim no candelabro, onde ela brilha para todos os que estão em casa. Assim também brilhe a vossa luz diante das pessoas, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5, 13-16).

A CIDADE DOS CONTRASTES: Entretanto, Jesus chorou sobre Jerusalém: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te foram enviados! Quantas vezes eu quis reunir teus filhos como uma galinha reúne seus pintainhos debaixo das asas, mas não quisestes! Vede, vossa casa ficará deserta. Pois eu vos digo: desde agora não mais me vereis até que digais: ‘Bendito aquele que vem em nome do Senhor!'” (Mt 23, 37-39).

A CIDADE DOS SONHOS: Mesmo com todas as vicissitudes de Jerusalém e de todas as cidades construídas pela humanidade, o Apocalipse vê uma cidade diferente, redimida e renovada: “Vi então um novo céu e uma nova  terra. Pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, descendo do céu, de junto de Deus, vestida como noiva enfeitada para o seu esposo. Então, ouvi uma voz forte que saía do trono e dizia: ‘Esta é a morada de Deus-com-os-homens. Ele vai morar junto deles. Eles serão o seu povo, e o próprio Deus-com-eles será seu Deus. Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos. A morte não existirá mais, e não haverá mais luto, nem grito, nem dor, porque as coisas anteriores passaram’. Aquele que está sentado no trono disse: ‘Eis que faço novas todas as coisas'” (Ap 21, 3-5).

BELÉM DE JUDÁ, A CIDADE PEQUENA: Uma outra cidade, vizinha de Jerusalém, pequenina! “Herodes reuniu todos os sumos sacerdotes e os escribas do povo, para perguntar-lhes onde o Cristo deveria nascer. Responderam: ‘Em Belém da Judéia, pois assim escreveu o profeta: E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá um príncipe que será o pastor do meu povo, Israel’ (Mt 2, 4-6). Antes, os pastores dos arredores de Belém de Judá haviam dito: ‘Vamos a Belém, para ver o que aconteceu, segundo o Senhor nos comunicou. Foram, pois, às pressas a Belém e encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura'” (Lc 2, 15-16).

A CIDADE NASCIDA SOBRE AS PALHAS DO FORTE DO PRESÉPIO: Há quatro séculos a Boa Nova do Evangelho aportou em nossas terras, para aqui plantar raízes. Os missionários se alegraram ao verem as Sementes do Verbo de Deus que o Espírito Santo havia espalhado, precedendo seus passos, e anunciaram corajosamente a Palavra. Vieram a Belém viram o que o amor de Deus realizou, no meio de tantas lutas, fracassos e vitórias. Belém nasceu no presépio e daqui, sob a proteção de Nossa Senhora da Graça, chamando-a Santa Maria de Belém ou Senhora de Nazaré, a mensagem da salvação partiu para toda a Amazônia.

A CIDADE EM TORNO DA PALAVRA E DO ALTAR DA EUCARISTIA: Estamos reunidos nesta Sé Catedral para celebrar a Eucaristia, memorial-presença do único Sacrifício de Cristo, nova e eterna aliança. À luz do mistério, ouso propor novas dimensões de aliança, um novo pacto entre os cidadãos e cidadãs, nascido do Altar, para se espalhar entre todos os homens e mulheres de boa vontade, amados do Senhor:

  • O primeiro passo é a superação da Torre e da Cidade de Babel, a terra da confusão. Nosso convite a Belém é que se torne espaço de mais diálogo e entendimento entre iguais, diferentes ou contrários! Trata-se de proclamar uma anistia de perdão e misericórdia, começando de cada um de nós, sem exigir dos outros! Difícil, talvez, impossível, não.

 

  • Babel foi invertida na manhã de Pentecostes, quando “todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia expressar-se. Residiam em Jerusalém judeus devotos, de todas as nações que há debaixo do céu. Quando ouviram o ruído, reuniu-se a multidão, e todos ficaram confusos, pois cada um ouvia os discípulos falar em sua própria língua” (At 2, 4-6). A Nova e Eterna Aliança, selada no Sacrifício de Cristo, abriu as portas para a efusão do Espírito Santo. Tomo a liberdade de pedir que venha sobre esta cidade a ação do Espírito e apelo a todos os cristãos, católicos e de outras confissões igualmente cristãs, a clamarem pela cidade o derramamento do Espírito Santo, que convença a todos de que sem o Senhorio de Jesus Cristo, nada podemos fazer (Cf. Jo 15, 5). Peçamos humildemente a luz que vem do alto, para que nossa cidade não fique escondida, mas se edifique sobre os montes dos grandes e honestos ideais. Aqui se preste culto de adoração apenas e tão somente àquele que tudo pode e é nosso Senhor!

 

  • Nossa Belém do Pará, com seus quatrocentos anos, é também terra de contrastes. Não tinham natureza angélica os que trouxeram o Evangelho para a Amazônia. Com as gerações que o fizeram, dando sangue, suor e lágrimas, pedimos perdão a Deus misericordioso pelos atrasos, fracassos e erros de abordagem com os quais atuaram.

 

  • Entretanto, a Igreja quer fazer a todos os irmãos e irmãs, homens e mulheres amados por Deus, a proposta de não se acomodarem assentados sobre os louros de vitória dos quatrocentos anos celebrados em festa nos dias que correm. Queremos pedir que a força redentora do Sacrifício de Cristo, partilha de vida e salvação para a vida do mundo, abra nossos corações para compartilhar com todos os nossos bens. Trata-se de lutar com todas as forças para superar a escandalosa desigualdade social. O senso do bem comum há de crescer, ensinando-nos a olhar em torno a nós. Basta verificar a quantidade de homens e mulheres que vivem em nossas ruas, machucados pela miséria, bebidas e drogas. São dolorosos letreiros acesos por Deus para nos despertar! E podemos visitar com o coração as inúmeras casas e famílias nas quais a miséria está presente e grita alto!

 

  • Ao mesmo tempo damos graças porque os acertos foram muito maiores. Permitimo-nos olhar do nosso ângulo, pois a Igreja acompanha esta história passo a passo: os valores do Evangelho estão presentes em nossa cultura, as devoções, e devoções são provas de amor, suscitaram confiança imensa na Providência de Deus, cultivaram famílias piedosas, edificaram as igrejas, formaram gerações de sacerdotes, comprometeram-se com a educação de crianças e jovens, deram nomes a pessoas, logradouros, bairros. Por todo lado algum santo se tornou protetor, um título de Nossa Senhora se implantou e, mais do que tudo, o perene louvor a Deus se consolidou. Quatrocentos anos de Missa e de pregação da Palavra, quatrocentos anos de Batizados, Matrimônios, Sacramento da Penitência, Sepultura Cristã, quatrocentos anos de Oração! Quatrocentos anos de presença fiel da Igreja junto à sociedade, como sal e luz e fermento! E dentro de poucos meses, a Igreja de Belém dará à cidade o grande presente do XVII Congresso Eucarístico Nacional. Também por isso nossa cidade é motivo de justo orgulho e de grande alegria no dia de hoje, como a Jerusalém cantada nos salmos.

 

  • Nossa Belém é Metrópole, Cidade grande que gerou outros Municípios naquilo que chamamos a grande Belém. No entanto, ela não pode se esquecer, e este é um pacto que a Igreja propõe, dos pequenos e dos pobres, das famílias, das crianças, dos enfermos e outros tantos sofredores. Só o pequeno é que pode fazer o grande! Belém de tantas passagens e vielas, receba a visita daquele que veio simples e pequeno. Belém olhe de novo para o Presépio.

 

Enfim, o sonho da Jerusalém Celeste seja abraçado por todos nós que aqui participamos da Santa Missa. Tenhamos a coragem de sonhar alto, com um lugar onde “não haverá mais luto, nem grito, nem dor, porque as coisas anteriores passaram’. Aquele que está sentado no trono disse: ‘Eis que faço novas todas as coisas'” (Ap 21, 3-5). Para chegar lá, ouçamos o Apóstolo: Não vos inquieteis com nada; mas, apresentai a Deus todas as vossas necessidades pela oração e pela súplica, em ação de graças. Então, a paz de Deus, que excede toda a compreensão, guardará os vossos corações e pensamentos, em Cristo Jesus” (Fl 4, 6-7).

Dom Alberto Taveira Corrêa

Arcebispo Metropolitano de Belém

 

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