A presença da Igreja na Amazônia é resultado de um processo histórico que se desenvolveu dentro de um contexto sócio-econômico-político-cultural que condicionou profundamente sua caminhada aqui e, por conseguinte, o anúncio do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Porém, os enquadramentos históricos de modo algum impediram que a mensagem do Evangelho fosse anunciada e a Igreja deixasse de realizar sua missão.

Os principais agentes da evangelização do período colonial – os religiosos – atuaram seguindo as práticas existentes entre a Igreja católica e o império português, no sistema de Padroado, o que caracterizou um modelo de cristandade, havendo instâncias que pensavam e organizavam tudo o que se referisse à missão da Igreja. Outros agentes atuaram nessa fase: os padres diocesanos, então chamados seculares, antes mesmo da criação de uma diocese na região e atuaram nas primeiras paróquias criadas por aqui .

Do outro lado estavam os povos indígenas , considerados como pagãos a serem convertidos – “reduzidos” – pela evangelização, para tornarem-se civilizados. Para os índios a Igreja, através dos missionários, organizou um modo original de evangelizar: os aldeamentos missionários e os colégios. Pela mentalidade da época, estes povos indígenas foram quase totalmente ignorados na sua alteridade cultural, na organização de suas sociedades, economia e expressões religiosas.

Os africanos trazidos à força de suas terras – a Mãe África – como “mercadoria escravizada, traficada, leiloada, comprada e revendida”, sofreram “no corpo e na alma” ao serem considerados pagãos, hereges e infiéis, por uma sociedade e uma evangelização sustentadas pelas visões teológicas e eclesiológicas de então, não existindo para eles um organizado projeto de evangelização como aconteceu para com os índios. Como evangelizar numa terra de escravidão? Essa convivência de visões religiosas – católica, indígena e africana – gerou expressões populares de vida religiosa, que fizeram sobreviver as religiões indígena e africana em simbiose com o catolicismo de origem portuguesa: beatos, beatas, rezadores e  benzedeiras, ladainhas, procissões, devoções, festas de santos e santas, são seu resultado mais expressivo. Estas práticas religiosas subsistem até hoje, na piedade popular, que continua a valorizar, respeitar e vivenciar este modo de se expressar  religiosamente. O povo assimilou um jeito próprio de viver sua fé, que se expressou no meio dos pobres através da solidariedade, partilha, hospitalidade. Alguns desses elementos são frutos da participação dos africanos, que se “acomodaram” ou então deixaram bem marcadas seus modos de viver e se expressar diante dos valores cristãos, com rezas, cantos, danças, batuques, gingados e tantas manifestações advindas das práticas religiosas africanas, presentes na “alma amazônica”, gerando uma espécie de misticismo amazônico.

Todo esse amálgama de expressões religiosas diversificadas está sintetizado de modo extraordinário no Círio de Nazaré, desde a história do achado da imagem de Nossa Senhora de Nazaré por um caboclo chamado Plácido, em 1700, e do Círio, iniciado em 1793, até as recentes manifestações. Esse modo de ser se manifesta também num ciclo de festas religiosas – que têm um calendário próprio – de outros santos, santas e títulos marianos espalhados por toda a região.

Mais próximo do nosso tempo, lembramos que as mudanças ocorridas a partir dos anos 50, por uma abertura à participação dos Leigos e leigas na Igreja através da Ação Católica e Movimentos Eclesiais, a renovação iniciada pelo Concílio Vaticano II, pelas Assembleias de Medellín, Puebla e Santo Domingo, provocaram transformações significativas na caminhada evangelizadora da Igreja.

Para a Igreja, evangelizar significou encarnar-se na realidade do povo e anunciar a Boa Nova centrada no Reino de Deus pregado por Jesus Cristo. Tendo a encarnação como diretriz – assumida aqui entre nós na Assembleia de Santarém (1972) – a Igreja amazônica avançou no processo de inculturação e plenificou sua presença neste chão amazônico quando em Manaus (1997) se declarou como a Igreja que armou sua tenda na Amazônia, ou seja, uma Igreja com rosto amazônico. Uma Igreja voltada aos mais abandonados, preocupada com sua opressão, foi solidária nas suas lutas, o que provocou rupturas com  classes dirigentes e dominantes e gerou mártires. De certo modo estabeleceu-se um novo modo de ser Igreja, abrindo espaços para leigos e leigas exercerem de modo efetivo e concreto seus ministérios ao lado do clero, do episcopado e dos religiosos e religiosas, alargando horizontes sobretudo na criação de comunidades espalhadas por toda a região, o que possibilitou uma maior presença da Igreja em todas as situações da vida desses povos, uma verdadeira rede de comunidades, eclesiais. Podemos afirmar que ao longo dessa história, foi configurado o rosto de um povo, o povo amazônida, com características culturais e religiosas próprias, como uma identidade. Hoje, devido às grandes transformações porque passa a região, sobretudo na sua diversidade social , podemos falar de vários outros rostos, de várias “Amazônias” e de vários amazônidas, o que se torna um dos maiores desafios para a missão da Igreja.

 

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